Hoje acordei assim meio desacordado, ainda sonhando
e me recusando a abrir os olhos, enquanto eu os mantinha fechados ele
sorria no travesseiro ao lado, sua pele morena dava cor a esses lençóis
brancos e limpos, e eu fiquei ali, preferi não contar os minutos, não
queria me apressar a acabar aquele momento em que seus olhos
castanho-escuros passeavam pela minha boca recém molhada de um dos seus
beijos. Ele me dizia coisas do tipo “não acorde, eu estou aqui do seu
lado” e eu queria acreditar que não era necessário acordar.
Ainda com os olhos fechados eu o
encarei, meus dedos acariciavam seus braços não fortes, foi quando eu o
abracei e fiz dos seus braços meu mundo, eu senti seu cheiro naquele
momento, aquele cheiro que ele insistia em deixar na toalha estendida no
varal, a mesma toalha que já não se via a muito tempo estendida no
mesmo varal.
Eu fiquei com medo de abrir os olhos, eu
lacrimejei, e o apertei tão forte que sentia seus vasos pulsarem meu
desespero, ele retribuiu o abraço, eu não queria que ele visse minhas
lágrimas, então virei de costa e ele ainda querendo se manter presente
passou seus braços por mim e me fez arrepiar com sua pouca e falha barba
roçando meu pescoço, sua respiração esquentando minha orelha, eu
precisava acordar mas queria manter aquele abraço, queria prolongar
aquele momento em que eu estava acordado desacordado, eu queria tanto
aquele momento.
Tive a ideia de fazer um café da manhã pra nós
dois, ele sempre disse que gostava do meu café, e por um segundo eu
quase abri meus olhos, e esse segundo me matou de desespero, eu me virei
e ainda com os olhos fechados vi que ele ainda estava lá, ele disse:
- Vá em frente, faça o que você tem de fazer.
Tinha tanta certeza naquelas palavras que me fizeram acreditar, e eu cheio de esperanças perguntei:
- Se eu abrir os olhos você ainda estará aqui?
- Eu já parti há muito tempo, só você não viu, mas
abra os olhos, levante e faça um café, o mesmo que eu tantas vezes disse
que gosto, faça isso por nós dois, aproveite cada segundo dele, não só
hoje, mas amanhã e depois de amanhã, até você perceber que gosta do seu
café e que já o faz por você.
Eu abri os olhos. Seu sorriso, seus olhos
castanho-escuros, sua pele morena, seu braço não forte, seu cheiro, seus
vasos pulsantes, sua barba pouca e falha e sua respiração quente já não
estavam lá.
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