Sabe aquele abraço apertado, sufocante que te protege do mundo, te mantêm seguro por breves segundos que se projetam por anos em seus passados rotineiros, é veneno mortal, igual ao beijo, tal qual o desejo.
Sinto a carência de abraços assim, é bem verdade que um abraço específico, em especial de uma pessoa cujo nome nunca me atreverei a citar, me traria o suprassumo da felicidade, mas a verdade também dita as regras tristonhas a que me submeto, nada de abraços verdadeiros.
Talvez eu sinta falta não só dos braços, e da pele na pele, dos pelos nos pelos, olhos instintivamente fechados, apenas sentindo o pulsar, o correr, imaginar sem tempo de pensar, apenas prazer em afagar. E também a falta do cheiro da epiderme quimicamente modificada pelo trabalho de um boticário, como já dizia o poeta - um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de
outra pessoa.*, onde a identidade verdadeira nunca passa despercebida, é imutável, vicioso e perigoso, o cheiro do pescoço.
Talvez não seja só o momento em si que me faça falta, não só os minutos brevemente eternos em que os corpos se conectam por uma corrente de sentimentos feito magia. Segundos que são incontáveis, não pela falta de tempo, mas pela grandiosidade de seu conteúdo, é burrice cronometrar o tempo de um abraço e perder a insanidade de seu amplexo e todo o seu apreço.
Talvez não seja qualquer pessoa que me dê aquele abraço, é como se meu corpo fosse moldado de acordo com certos braços, nem fortes, nem magros, sem peito aparente, mamilo raso, barba falha, pele morena, traços indígenas, dedos em seu perfeito padrão, um pouco mais alto, sem muita química de perfume e mais cheiro de sabonete, de toalha. Essas são as características ideais do molde par do meu abraço, imperfeito em todo o seu compasso.
Mas talvez não seja tudo isso recém citado que me faça querer um abraço, a verdade está escrita no cansaço de me acalentar, de me fazer suficiente, de dar sorrisos hipócritas, de engolir as lágrimas, de ser sozinho e me fazer forte, de abraçar o travesseiro e imaginar todos os traços do molde par do meu abraço, de conversar com as paredes em monólogos de desabafo, repetindo diariamente que dos seus braços não mais sairão os meus abraços.
* Sem Ana, blues - Caio Fernando de Abreu
* Sem Ana, blues - Caio Fernando de Abreu

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