quarta-feira, 26 de março de 2014

Infinitivo


Por um tempo eu não falei a respeito das coisas que minha fraca memória se desgastam em lembrar. Talvez fosse o medo de retomar o partido de um coração aos pedaços, ou até mesmo, a frustrada tentativa de ignorar o que permaneceu.
Eu bem sei que o espaço de tempo que se apoderou de nossos corpos é suficiente pra evitar dar sentido à saudade, e depois de tanto querer e nada poder é vergonhoso ansiar por algo a mais.
Talvez doa mais em mim te perdoar, é libertar, dar asas pra voar. Finalmente pontuar o fim é a forma mais triste de finalizar, sem deixar fiapos. Todos os nós estarão atados, e nenhuma forma de retroceder poderá ser ateada.
Então eu deixo em aberto o verbo no infinitivo. Amar, doar, sofrer, lutar, olvidar.
Uma vez que ao seu lado, eles jamais serão conjugados.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Um pouco mais fundo, bem mais vivo


É que tudo pareceu um grande vendaval, e eu fiquei tonto, entorpecido, anestesiado. O chão era água, gelou os vasos e inundou o cômodo, a pele queimou com o gelo e virou fumaça branca e opaca, logo tudo empestou e o branco mostrava as inúmeras cores passando despercebidas, sentindo inveja por serem esquecidas. 
Eu estava morto, fisicamente respirando e inspirando, peito a cima e peito a baixo, enchendo e esvaindo, aquecendo os pelos do nariz, mas eu estava morto, mentalmente pensante, atento. E eu estava morto, jogado no interior de um abismo porque assim desejava estar e assim permaneci até que desfalecer só me restasse, até que tudo fosse passado e o presente acabasse como começou, com a imensa vontade de morrer.
A morte, no entanto, me trouxe a vida, e as cores esquecidas pintaram um novo céu, verde-claro. Precisamos, em alguns momentos, ir mais fundo do que o fundo do poço, porque sabemos voltar, só precisamos acreditar.