segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O que eu não odeio em você


Eu tanto que te odeio, odeio mesmo, com intensidade de raiva, de ódio, sinto todas as camadas da minha pele, as dermes, britarem todo esse sentimento, o fazendo cair na corrente sanguínea como uma bactéria multirresistente, indo até meu coração, inflamando o músculo, uma pericardite de sentimentos no já enegrecido coração.
Eu odeio olhar pra você, principalmente em fotos, quando você estampa um sorriso de superioridade, que raiva eu tenho desse sorriso e seus dentes brilhantes e venenosos, viciantes lábios, saliva adocicada, e o encaixe? Ah como eu odeio o encaixe da sua boca na minha me fazendo desencaixar todas as outras, eu odeio sua boca.
Eu faria você sumir, não apenas hoje, mas o faria nunca ter existido, se pudesse, não apenas por mim, mas pelo ódio já captado por outros pobres e frágeis corações.
Eu acabo me trocando por você, tento penetrar em seus pensamentos e em seus sentimentos, e cara você não os tem, é impossível que os tenha, e eu acabo odiando ser tão sentimental tendo todos de uma vez. Eu no fundo odeio não ser você pra me ver afundar.
 Eu odeio todas as lembranças, tanto as da sua cama que me excitam e me fazem perder o tesão em camas de motéis, quanto das suas palavras ditas que ecoam em minha cabeça quando algum outro cara geme ao pé do meu ouvido.

"você é a pessoa mais especial da minha vida"
"nunca quero perder você"
"Eu não sei viver sem você"
"Eu te amo"

Eu odeio tanto sua voz adaptavelmente grossa, com medo de afinar, como quem desafina acordes e nada compõe.
Você não tem ideia do que eu passei pra te esquecer quase nada, e esse quase nada, mísero esquecimento de breves segundo soam como vitória pra mim. Eu odeio a saudade que você me traz nos dias corriqueiros em que passo te admirando num altar de memórias abstratas, eu odeio ter apenas seu abstrato.
Você não tem direito de me ligar, de me procurar, eu simplesmente odeio a sua falta de direitos sobre mim, a forma como me deixa solto e eu acabo fazendo burradas com uma garrafa de cerveja e uma carteira de cigarros, e outros caras, outras pernas, eu odeio as suas pernas, odeio a sua bunda e a forma como a tocava, ainda sinto os pelos, ainda sinto o desejo, ainda sinto seu membro, eu odeio sentir tudo por você.
Vá embora para sempre, me esqueça, me anule, me apague, você não tem intenção de ficar, não me peça pra implorar, meus joelhos doem, meu corpo dói, minha alma dói. E eu odeio a dor não física que agarra a garganta e aperta, que espremi as lágrimas que se confundem na água do chuveiro, correndo pelas minhas imperfeições no rosto, passando pela minha barba não feita, e eu odeio o fato de sempre ter que fazer a barba pra você.
Eu odeio o caminho da sua casa, o seu bairro, sua rua e as curvar, do corpo, do gosto, do sentimento, eu odeio as curvas dessa história.
Não volte, eu odeio ter que pedir isso, eu eu odeio ter que implorar que você não volte, eu já implorei tanto que ficasse, eu odeio sua indecisão.
Eu odeio...
Suas coisas, suas roupas...
E o perfume que te dei e você o usa com outros, no plural mesmo, de quem não se prende no singular, de quem não sabe valorizar.
Eu odeio tanto, tanto, tanto...
Eu odeio te amar tanto.

domingo, 11 de agosto de 2013

Sobre aquela conversa



Ultimamente tenho me encontrado num lugar onde posso me desprender de sentimentos, é uma tentativa de desligar o amor, desapegar do apego.
Sou obrigado a confessar que nem sempre é a melhor atitude pra se adotar na vida, uma vez que a vida é tão pouca pra ter pouco amor, ontem eu tinha 10 anos e acreditava em contos, hoje tenho 22 anos e tento desacreditar, ainda tento.
Um amigo me disse que pessoas como eu são essenciais pro equilíbrio do mundo, que o romance não pode morrer, eu concordo, mas discordo quando me questiono o porquê eu tenho que pagar um preço tão alto pra abalançar o universo.
Estou cansado, é como aqueles dias em que você trabalha tanto que seu corpo pede apenas por uma cama e o apagar do mundo, estou cansado e preciso apagar o mundo.
É bem verdade que eu sou romântico, isso faz parte de mim, se não fosse assim não seria eu, mas é preciso alimentar todo esse amor, atualmente eu só consigo alimentar meu fígado e meu pulmão.
Ainda há esperanças, mas agora eu vou descansar e esperar que alguém me prove que estou errado e que o amor não acabou nessa geração.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O molde par do meu abraço


Sabe aquele abraço apertado, sufocante que te protege do mundo, te mantêm seguro por breves segundos que se projetam por anos em seus passados rotineiros, é veneno mortal, igual ao beijo, tal qual o desejo.
Sinto a carência de abraços assim, é bem verdade que um abraço específico, em especial de uma pessoa cujo nome nunca me atreverei a citar, me traria o suprassumo da felicidade, mas a verdade também dita as regras tristonhas a que me submeto, nada de abraços verdadeiros.
Talvez eu sinta falta não só dos braços, e da pele na pele, dos pelos nos pelos, olhos instintivamente fechados, apenas sentindo o pulsar, o correr, imaginar sem tempo de pensar, apenas prazer em afagar. E também a falta do cheiro da epiderme quimicamente modificada pelo trabalho de um boticário, como já dizia o poeta - um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa.*, onde a identidade verdadeira nunca passa despercebida, é imutável, vicioso e perigoso, o cheiro do pescoço.
Talvez não seja só o momento em si que me faça falta, não só os minutos brevemente eternos em que os corpos se conectam por uma corrente de sentimentos feito magia. Segundos que são incontáveis, não pela falta de tempo, mas pela grandiosidade de seu conteúdo, é burrice cronometrar o tempo de um abraço e perder a insanidade de seu amplexo e todo o seu apreço.
Talvez não seja qualquer pessoa que me dê aquele abraço, é como se meu corpo fosse moldado de acordo com certos braços, nem fortes, nem magros, sem peito aparente, mamilo raso, barba falha, pele morena, traços indígenas, dedos em seu perfeito padrão, um pouco mais alto, sem muita química de perfume e mais cheiro de sabonete, de toalha. Essas são as características ideais do molde par do meu abraço, imperfeito em todo o seu compasso.
Mas talvez não seja tudo isso recém citado que me faça querer um abraço, a verdade está escrita no cansaço de me acalentar, de me fazer suficiente, de dar sorrisos hipócritas, de engolir as lágrimas, de ser sozinho e me fazer forte, de abraçar o travesseiro e imaginar todos os traços do molde par do meu abraço, de conversar com as paredes em monólogos de desabafo, repetindo diariamente que dos seus braços não mais sairão os meus abraços.

* Sem Ana, blues - Caio Fernando de Abreu