Eu tanto que te odeio, odeio mesmo, com intensidade de raiva, de ódio, sinto todas as camadas da minha pele, as dermes, britarem todo esse sentimento, o fazendo cair na corrente sanguínea como uma bactéria multirresistente, indo até meu coração, inflamando o músculo, uma pericardite de sentimentos no já enegrecido coração.
Eu odeio olhar pra você, principalmente em fotos, quando você estampa um sorriso de superioridade, que raiva eu tenho desse sorriso e seus dentes brilhantes e venenosos, viciantes lábios, saliva adocicada, e o encaixe? Ah como eu odeio o encaixe da sua boca na minha me fazendo desencaixar todas as outras, eu odeio sua boca.
Eu faria você sumir, não apenas hoje, mas o faria nunca ter existido, se pudesse, não apenas por mim, mas pelo ódio já captado por outros pobres e frágeis corações.
Eu acabo me trocando por você, tento penetrar em seus pensamentos e em seus sentimentos, e cara você não os tem, é impossível que os tenha, e eu acabo odiando ser tão sentimental tendo todos de uma vez. Eu no fundo odeio não ser você pra me ver afundar.
Eu odeio todas as lembranças, tanto as da sua cama que me excitam e me fazem perder o tesão em camas de motéis, quanto das suas palavras ditas que ecoam em minha cabeça quando algum outro cara geme ao pé do meu ouvido.
"você é a pessoa mais especial da minha vida"
"nunca quero perder você"
"Eu não sei viver sem você"
"Eu te amo"
Eu odeio tanto sua voz adaptavelmente grossa, com medo de afinar, como quem desafina acordes e nada compõe.
Você não tem ideia do que eu passei pra te esquecer quase nada, e esse quase nada, mísero esquecimento de breves segundo soam como vitória pra mim. Eu odeio a saudade que você me traz nos dias corriqueiros em que passo te admirando num altar de memórias abstratas, eu odeio ter apenas seu abstrato.
Você não tem direito de me ligar, de me procurar, eu simplesmente odeio a sua falta de direitos sobre mim, a forma como me deixa solto e eu acabo fazendo burradas com uma garrafa de cerveja e uma carteira de cigarros, e outros caras, outras pernas, eu odeio as suas pernas, odeio a sua bunda e a forma como a tocava, ainda sinto os pelos, ainda sinto o desejo, ainda sinto seu membro, eu odeio sentir tudo por você.
Vá embora para sempre, me esqueça, me anule, me apague, você não tem intenção de ficar, não me peça pra implorar, meus joelhos doem, meu corpo dói, minha alma dói. E eu odeio a dor não física que agarra a garganta e aperta, que espremi as lágrimas que se confundem na água do chuveiro, correndo pelas minhas imperfeições no rosto, passando pela minha barba não feita, e eu odeio o fato de sempre ter que fazer a barba pra você.
Eu odeio o caminho da sua casa, o seu bairro, sua rua e as curvar, do corpo, do gosto, do sentimento, eu odeio as curvas dessa história.
Não volte, eu odeio ter que pedir isso, eu eu odeio ter que implorar que você não volte, eu já implorei tanto que ficasse, eu odeio sua indecisão.
Eu odeio...
Suas coisas, suas roupas...
E o perfume que te dei e você o usa com outros, no plural mesmo, de quem não se prende no singular, de quem não sabe valorizar.
Eu odeio tanto, tanto, tanto...
Eu odeio te amar tanto.