Você se foi, seus passos deixaram sombra pela
porta aberta, ainda posso sentir seu perfume pelo corredor e sua imagem
ainda reflete nítida no espelho, me olhando com olhos de reprovação, de
decepção. Eu ainda não entendi o que aconteceu por aqui, no meio da
bagunça do nosso quarto, agora meu quarto, mesmo que a bagunça ainda
seja por parte sua, ainda que suas roupas estejam espalhadas ao redor da
cama e a televisão esteja sintonizada no seu canal favorito, é um lugar
só meu agora, com minhas lembranças e minhas esperanças. Não sei
exatamente por onde começar a entender os motivos das nossas brigas, o
momento exato em que você me viu como uma ameaça, eu não sei, não
consigo pensar e só sei chorar, me faço de água salgada moldada na minha
pele, caindo ao travesseiro.
E eu já sinto a sua falta, e faz apenas cinco
minutos que você passou pela porta, mas eu já sinto vontade de te ligar
e perguntar que horas você vai chegar, mesmo sabendo que por hoje a
noite você não vai voltar, que eu vou ter que me virar nessa bagunça,
vou ter que tomar o problema pra mim e passar a noite conversando com
ele. Faz apenas cinco minutos que você se foi, mas pra mim parece que
você nunca esteve aqui e que tudo foi uma grande ilusão.
O que eu faço com a dor? Eu apenas a sinto e
deixo que ela me faça dormir? Eu não gosto da ideia de você não estar
aqui pra me fazer dormir, eu não posso continuar sem você, eu não sei
como fazer disso uma vida, não sem você, não é uma vida.
Eu deixei a porta aberta pra você não
precisar bater quando chegar, eu passarei a noite sentado esperando você
chegar, eu, minhas lágrimas e nossa bagunça.
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