Mais uma vez me sento em frente a lareira para refletir, quando olho
pela janela percebo que a lua foi embora e levou consigo meus espelhos
de meditação. Uma taça de um bom vinho me faz compania e embriaga as
náuseas de uma solidão, mas de um jeito bom, você ao menos ficou nos
retratos.
É inverno lá fora e a neve não me deixa sair, o clima europeu me faz
chorar sem consolação, mas não tem problema, com o tempo eu me acostumei
com o molhar das lágrimas, pode demorar, mas elas sempre voltam ao
chão.
Sinto o frio beber cada gota do meu gélido singular, os poros me
arrepiam a alma e eu apenas queria me aquecer no seu simples ato de
respirar. Quando penso em tuas digitais manchando toda extensão do meu
corpo eu me preparo pra mais um devaneio, mas uma chance de me ter
envolto em teus braços.
Enquanto a noite avança e a garrafa de vinho seca, o fogo da lareira
acaba, de forma simples e tendenciosa, me obrigando a me entregar ao
escuro dos meus sentimentos, a mais estúpida ideia de me embebedar de
esperanças, ainda tomando pra mim o frio que faz lá fora e que aos
poucos invade meu interior.
Eu não sei em que momento meus olhos se fecharam jogados no meio
daquela sala escura e fria, talvez quando o vinho secou dos meus lábios e
a garganta se fez seca das minhas vontades, nesse momento, exatamente
nesse momento eu acredito ter adormecido no seu peito, como uma canção
de ninar, um pesadelo vivo.
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